DOLCE VITA
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 O PODER NAS RELAÇÕES SADOMASOQUISTAS
 
 
"(...) Louco amor meu que, quando toca fere
e quando fere, vibra, mas prefere
ferir a fenecer (...)"


-- Trecho do "Soneto do Maior Amor" de Vinicius de Moraes



Escolhi este fragmento, de um dos mais belos sonetos do poetinha, para falar sobre o tema deste ensaio. Uma ideia que surgiu ao assistir "Secretária" ("Secretary"). O filme oferece uma instigante oportunidade de visitar um assunto polêmico, delicado e obscuro: as relações sadomasoquistas. Um mundo onde o soneto é literal, sem nenhuma licença poética.


Falar sobre o filme não é o foco do que virá a seguir. Transgrido e escrevo sobre o que pode ajudar a entendê-lo, e cada um que se sentir convidado a assisti-lo, que o faça com seu próprio olhar.


As relações de dominação/submissão são intensas por muitas razões. O eixo do poder é, na verdade, o seu próprio paradoxo: quem domina não é o sádico que impõe sua fúria, castigos físicos e humilhações psicológicas, mas o submisso que, não apenas provoca seu dominador, como suporta a força de seus movimentos.


Sem a resistência, isto é, a capacidade de suportar, e ao mesmo tempo, a entrega do submisso, não há dominação. Logo quem confere poder ao dominador é o dominado. E aí se estabelece uma dependência absoluta entre as partes: quem domina só pode vivenciar sua essência em plenitude se houver um submisso que possibilite que a natureza dominadora emerja. Quem se submete, encontra um sentido para o tormento, ao retirar prazer de sua dor.


E como será a alma desse que se entrega? Uma das possíveis interpretações é o vazio amoroso, berço do sentimento de desaprovação. Quem se submete, de alguma forma, acredita merecer ser punido. E vai além. Não deseja ser aprovado, pelo contrário, necessita da constante desaprovação porque é a única coisa que pode (re)conhecer dando sentido ao seu vazio doloroso.


O dominador é um ocupador de espaços, enquanto o submisso é um vazio a ser preenchido. 

Nestes relacionamentos tudo precisa ser intenso demais porque só assim a dor encontra uma significação através do prazer em suportá-la. A entrega é também orgulho e vaidade de portar as marcas do domínio. E o submisso, ao escravizar-se, acredita ter encontrado sua liberdade.

 
Paradoxal? Estranho? Como entender esse jogo de contrastes? Talvez uma possível resposta encontre eco numa das cenas mais sutis e fulminantes do filme "Secretária" ("Secretary"). Após receber os primeiros golpes físicos do seu chefe, a secretária, postada com as duas mãos sobre a mesa, roça com seu dedo mínimo a mão do homem a quem acaba de se submeter. Ali, no segundo que registra a cumplicidade com inesperada ternura, nasce um casal. Um insólito casal.

 
 
(*) IMAGEM: Google
 "La Danaide" - Rodin 


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Enviado por Dolce Vita em 07/08/2009
Alterado em 27/04/2015
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