Algo mudou no jeito que Gustavo olhava para Anita — não porque ela havia descoberto tudo, mas por ele imaginar que sua mulher sabia: a traição que resultou em uma nova família, a filha de cinco anos e o tempo perdido dentro da ilusão de um casamento perfeito.
No entanto Anita não desconfiava de coisa alguma. E nem poderia. Desde o primeiro instante ela se agarrara a Gustavo como se ele fosse o sentido de sua vida, uma espécie de salvador de si mesma. Alguém que a protegia de olhar para dentro e enfrentar o vazio. O imenso vazio que na infância a fez sentir que o mundo era oco. Anita viu em Gustavo uma saída para fugir de si própria.
No início da história dos dois, sobretudo por vaidade, Gustavo se encantara por ser o centro da vida de Anita. Mas, com o tempo, esse mesmo lugar começou a sufocá-lo, tornando-se a brecha perfeita para o caso com Verônica, a nova secretária de sua empresa. O que não deveria ter passado de um deslize, prolongou-se. Gustavo perdera o controle e ganhara uma filha fora do casamento.
Dia após dia, voltar para a casa era uma espécie de punição. Um castigo por tantos erros. Atormentado pela dor do remorso, Gustavo sentiu a culpa crescer a ponto de fazê-lo enxergar o que não existia: uma Anita consciente de suas falhas como companheiro. Uma Anita que o julgava no mais torturante silêncio: o silêncio de uma espécie de prisão.
E assim os dois seguiram, aprisionados em suas próprias armadilhas: condenados um ao outro.