— Tenho medo de mulher que escreve.
Ao ouvir aquilo, Joana parou de anotar as ideias que tivera para uma oficina de Escrita Criativa, levantando a cabeça devagar. Naquele horário a biblioteca da Faculdade ficava vazia.
Parado em frente à mesa em que estava sentada, um cara sorria como se quisesse dizer: “foi só uma brincadeira”.
— Sou novo por aqui. Meu nome é Tiago. O teu?
Joana não tinha a menor vontade de confraternizar com um estranho, mas ainda assim, esboçou um sorriso, antes de dizer como se chamava.
Tiago deu a volta na mesa, puxou a cadeira ao lado de Joana, virando-a em direção ao corpo dele, e descontraído, sentou-se ali:
— Você é bonita. E inteligente. Deve sofrer.
Joana retrucou por puro reflexo:
— A vida não poupa ninguém.
Tiago parecia ainda mais seguro ao insistir:
— Eu sei que você tá sofrendo.
Por um instante, ela imaginou que tudo não passasse de um blefe para impressioná-la. Mas alguma coisa dentro de Joana dizia que ele era sincero.
— Você costuma abordar as pessoas assim?
Tiago sorriu e disse:
— Só aquelas que eu reconheço. E eu digo o que vem à minha cabeça.
— E o que vem à tua cabeça agora?
— Alguém que você amava demais, morreu, há dois anos atrás. E você foi morrendo em vida.
O coração de Joana disparou. Como um estranho poderia saber de seu luto? Ela sentiu um misto de medo e vontade de falar, falar, falar. Mas Tiago emendou:
— Eu ainda não disse tudo. Foi ele que me trouxe até aqui. Antonio pediu que falasse com você. E não esquecesse de dizer uma coisa: “setembro”.
Um longo arrepio percorreu as costas de Joana trazendo de volta a mesma sensação que sentira quando esteve com Antonio pela primeira vez, no primeiro dia de um setembro distante. Parecia que o tempo havia parado e ela estava em um estado de suspensão. As cenas do primeiro encontro com Antonio até o último dia em que estiveram juntos, vinte anos depois, voaram em sua mente. Antonio, o homem que chacoalhara sua existência morna, que a fez experimentar a alegria mais profunda de sua vida, que parecia deixar sua alma em estado de graça, Antonio, sempre Antonio. Como era possível conviver com tanta saudade? E como se fosse outra vez lançada à consciência, ela mal conseguiu balbuciar:
— Mas Antonio tá morto.
Tiago fixou seu olhar em Joana enquanto dizia:
— Muita gente pensa que eu sou maluco. Não me importa. É a minha missão. Eu tô aqui porque Antonio quer que você siga. Volte a viver. Essa história não termina: é só o começo.
Naquele exato instante, um raio de sol atravessou a grande janela da biblioteca iluminando a mesa que os dois ocupavam: Joana já não sabia mais se estava diante de um louco ou de um anjo. Talvez os dois.
ME SIGA NO INSTAGRAM:
@dolcevitacontos