Tiago caminhava sem rumo pelas calçadas escorregadias. Desde o início da tarde, a chuva não parara um só instante. A cada passo aumentava sua vontade de gritar por socorro, mas ele fora educado para não incomodar os outros. E isso só aumentava o seu sentimento de solidão.
Tiago queria ser forte. Um orgulho para a família. Mas tornou-se um colecionador de fracassos — um atrás do outro, a ponto de imaginar que era muito bom nisso: perder. Ainda que precisasse desesperadamente de uma pessoa com quem pudesse falar a respeito de suas angústias, o medo de ser julgado como fraco era maior, por isso Tiago não procurava ninguém.
E então ele a viu. A mulher vestida de vermelho passou apressada do outro lado da rua. A cor vibrante de sua capa contrastava com o guarda-chuva branco. Seu andar decidido encantara Tiago. Talvez por isso, ele — que vivia à deriva — resolveu segui-la, como se uma força o atraísse em direção a ela.
Ao chegarem a uma praça, a tal mulher de vermelho parou em frente à fonte. Ali, um pequeno anjo esculpido em mármore segurava um jarro que vertia água. Tiago ficou ainda mais interessado ao ver que ela molhara a ponta dos dedos, deslizando-os sobre a testa como se benzesse a si mesma pedindo proteção. E por quase meia hora — com o olhar preso ao anjinho de pedra, a mulher de vermelho desatou a falar da vida.
O relato era um festival de problemas desfilando em frente à fonte: conflito com marido, filho, mãe, chefe, subordinados, amigos, inimigos e afins. Talvez até sobrasse para um extraterrestre se ela conhecesse algum.
Atônito, Tiago acompanhava de perto o inusitado desabafo até que não aguentou a curiosidade:
— Por que você conversa com uma estátua?
Nesse momento a mulher de vermelho parou de falar, girando o corpo bruscamente para ver quem havia feito a pergunta. Grandes olhos azuis faiscantes se fixaram em Tiago enquanto ela disparava:
— Porque sempre que tento falar com alguém de carne e osso, sou interrompida o tempo todo.
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