DOLCE VITA
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O cliente das quintas-feiras chegava sempre no fim da tarde. Catherine o conhecera numa festa secreta em Brasília. Desde a primeira vez, o senhor N, que determinara ser chamado assim, deixou claro seus desejos em um contrato de confidencialidade. Catherine assinaria o documento sem qualquer ressalva. O sujeito não estava interessado apenas em diversão e prazer. Queria algo muito mais difícil: alguém para ouvir suas histórias e desabafos. A discrição da garota de programa seria muito bem paga. E assim foi, por longos meses, até aquele fim de tarde.

 

— Minha mulher anda desconfiada. Vou ficar um tempo sem aparecer por aqui.

 

Catherine não se surpreendeu. Muitas vezes ouvira aquelas palavras de outros clientes fixos: era uma questão de tempo. 

 

Na porta do banheiro, o senhor N contemplava a beleza de Catherine que envolvia o corpo molhado na toalha. E então perguntou:

 

— Você sabe fazer bolinhos de chuva?

 

Acostumada a escutar coisas que poderiam soar bem estranhas naquela situação, Catherine respondeu com outra pergunta:

 

— Eu deveria saber?

 

O cliente sorriu com a leve provocação da garota e confidenciou:

 

— Quando eu era criança e fazia algo errado, minha mãe me colocava de castigo. Mas aí a minha avó preparava esses bolinhos e me entregava, sem que minha mãe percebesse. De alguma forma, desde cedo, fazer algo errado foi deixando um gosto doce dentro de mim. Acho que de uma certa forma eu gosto de errar por isso. É como reencontrar o gosto dos bolinhos de chuva da minha avó. Ela era tão doce…

 

O senhor N interrompeu a história e ficou em silêncio, mergulhado em suas próprias lembranças. Seus olhos vagavam pela suíte do hotel, mas, na verdade, estavam de volta ao quarto azul de um menino travesso — um menino ainda preso ao gosto do que se perdeu no tempo.

 

A confidência do cliente revelou o enorme contraste entre os dois. Catherine crescera sem pais, sem avós, sem a doçura dos bolinhos de chuva escondidos. O gosto que conhecia era outro: amargo como o vazio que a empurrou para uma infinidade de erros até ali. Sentiu um nó apertando a sua garganta, mas falar era se abrir. Se expor. E na posição dela isso seria ainda mais perigoso. Catherine engoliu as palavras que não poderiam ser ditas. Ser forte o tempo todo era sua única opção. 

 

Quando o senhor N estava indo embora, Catherine — que sabia exatamente qual era o seu lugar e o que dizer — despediu-se:

 

— No dia em que você voltar, vou te receber com os bolinhos de chuva. 
 


 

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Enviado por Dolce Vita em 09/02/2025
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