A pensão de Dona Adelaide oferecia bom preço, comida caseira e quartos limpos. Rubens não teve a menor dúvida: o lugar era perfeito. Em menos de uma semana, cansado de tudo, ele saiu do emprego que odiava e rompeu o casamento que vinha capengando há uma década. A sua vida virara do avesso.
Ainda que o quarto da pensão fosse pequeno, Rubens sentiu-se tão à vontade ali que falava sozinho. Sem o menor estranhamento, começou a escutar os móveis arriscarem palpites a respeito de seus problemas. A mesinha vermelha, impulsiva e enfática, e a cadeira de palhinha, mais serena, disseram coisas tão interessantes que o motivaram a investir em outro campo profissional. Já a porta entalhada, sempre certeira, o levou a entender que merecia uma nova chance no amor.
E foi assim que Rubens voltou a ser um homem pleno de si. Encontrou outro trabalho que tinha tudo a ver com ele e um novo amor, repleto de afinidades. Em sua última noite na pensão de Dona Adelaide, Rubens adormeceu sorrindo enquanto a janela veneziana resmungava:
— Finalmente esse cara vai embora. Falar com as paredes ainda vai, mas querer terapia já é demais.
A porta entalhada retrucou, imperturbável:
— Ele teve alta.
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