O silêncio na Casa Cinza estava prestes a ser rompido. Malena Cardos acordou sobressaltada com os gritos do marido. Ela sacudiu os ombros do presidente da Absurdia, que abriu os olhos e sentou-se na cama. Por um momento, Ary parecia não saber onde estava. A primeira-dama perguntou:
— Outra vez aquele pesadelo?
Desde que Ary Cardos sonhara com a mirabolante fórmula da saúde perfeita, seu passaporte para a reeleição, um pesadelo recorrente o perseguia. Os absurdianos bebiam o tal elixir e viravam ferrenhos opositores do governo. O presidente lamentou:
— O pesadelo é um sinal. Não confio mais no elixir.
Malena saiu da cama e começou a andar em círculos enquanto falava:
— Esqueça o elixir. Chegou a hora do grande salto. O laboratório do serviço secreto conseguiu desenvolver a fórmula capaz de bloquear a capacidade crítica das pessoas. Basta colocar a substância nos reservatórios da Absurdia. O povo vai beber a água e te seguir, sem questionar coisa alguma. Você será a fonte da verdade. A única fonte.
O presidente ouvia a esposa sem esboçar qualquer reação. Malena voltou para a cama e, acariciando o rosto do marido, disse:
— Tudo seria mais simples se você desse um golpe, mas a democracia virou o fetiche da Casa Cinza.
Ary Cardos inclinou a cabeça para trás, soltando uma sonora gargalhada. No entanto, logo em seguida, fechou o semblante.
— Se todos vão me seguir, você será a primeira a beber a água.
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