O coração de Rafael era uma porta giratória: sempre entrava uma nova mulher. Talvez essa abertura tivesse nascido da rejeição de Ana. Depois dela, ele não seria de mais ninguém, mas ficaria com todas.
Quando Yasmin surgiu em sua vida, notou logo a movimentação intensa de outras mulheres. E ela não seria mais uma.
Ou seria?
A verdade nem sempre transitava por caminhos luminosos. Em algum lugar dentro de Yasmin — no mesmo canto onde se escondia aquela menina que, em vão, buscava o olhar dos pais distraídos —, habitava um gosto irresistível pelo desafio. Ela precisava ser diferente de todas as outras. A única capaz de corrigir a rota errante do homem que amava.
Em outras palavras, talento para quebrar a cara. E o coração.
E assim Yasmin iniciou uma verdadeira saga para encantar Rafael. E ocupar cada dia mais espaço na vida dele. Começou fazendo cursos — de dança do ventre a pole dance. Aprendeu a cozinhar pratos incríveis. Lia tudo o que encontrava pela frente: de jornal a bula de remédio. Queria estar informada, ter sempre um assunto interessante. Assistiu aulas sobre a história do futebol no Brasil e no mundo. Tudo para agradar Rafael, apaixonado pelo esporte.
Quem sabe Yasmin quisesse competir não apenas com as outras mulheres, mas também com os melhores amigos de Rafael.
E ele? Como via essa maratona?
Talvez, no início, tenha achado divertido, surpreendente. Mas logo depois sentiu-se incomodado pela necessidade crescente de Yasmin em agradá-lo. Logo ele, com seu coração de porta giratória que nunca emperrava?
Naquela noite, Yasmin preparou lasanha — o prato predileto de Rafael — e, na terceira taça de vinho, ele não se conteve:
— Acho que isso não tá como eu queria.
O olhar de Yasmin enquadrou a travessa de lasanha em cima da mesa, enquanto imaginava o que dera errado na receita.
Rafael emendou:
— Quero terminar nosso relacionamento.
Yasmin sentiu um nó apertar sua garganta. Olhou para a mochila no sofá. A roupa vermelha e dourada de odalisca estava ali dentro. E o plano de fazer uma surpresa para Rafael, na hora da sobremesa, fora de cogitação. Seu estômago embrulhava. E uma vontade louca de gritar a fez cerrar os dentes com tanta força, como se fosse implodir o maxilar.
Rafael tocou o braço de Yasmin, que, num movimento brusco, o retirou, impedindo o contato físico.
Naquele exato instante, Yasmin se deu conta da grande armadilha que criara para si mesma. Rafael não tinha qualquer responsabilidade nisso. Foi a própria Yasmin que se condenou a ser alguém que precisava agradar o tempo todo. Uma alma servil. Precisaria mergulhar fundo para resgatar a si mesma. Um longo caminho. Mas o primeiro passo nunca esteve tão perto.
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