Os dois se encontravam no mesmo café todas as semanas, mas nunca trocaram uma palavra.
A cafeteria era uma ilha rodeada de escritórios por toda a redondeza. Disputada em alguns horários críticos e mais tranquila em outros.
Sabrina gostava de aparecer por lá nos momentos de calmaria. Provavelmente, o sujeito que ela sempre via por ali pensava da mesma forma.
Esses encontros silenciosos se repetiam semana após semana. No início, ela olhava de relance, como se registrasse a presença que, aos poucos, já se tornava familiar.
Naquele dia, Sabrina quase sorriu ao sentar-se ao lado dele no balcão. Mas preferiu ficar na dela. De vez em quando, olhava em sua direção como quem observa o movimento da rua. As janelas do café emolduravam o vai e vem de carros e pessoas.
Enquanto tomava seu chocolate quente, uma buzina insistente ecoou lá fora. Irritada, Sabrina resmungou:
— Que idiota.
O sujeito riu, e ela emendou em tom de brincadeira:
— Eu tava falando do cara lá de fora.
Ele a encarou pela primeira vez em semanas e perguntou:
— Você sempre se explica?
Um quase estranho a via com mais clareza que muitos conhecidos. Sabrina tinha mania de dar satisfação ao mundo, como se ainda fosse uma criança prestando contas. Ela sorriu sem graça:
— Parece que você já me conhece.
Ele riu outra vez. E Sabrina arriscou confidenciar:
— Algumas vezes eu pensei em puxar conversa. A gente se esbarra tanto por aqui. Meu nome é Sabrina.
— E o meu é Guilherme.
Ele mexeu devagar o café, espalhando o aroma que Sabrina tanto gostava, e comentou:
— Engraçado pensar que só estamos conversando agora por causa de um idiota buzinando lá fora.
Sabrina não se conteve:
— Eu devia agradecer o cara.
Guilherme sorriu antes de provocar:
— Espere pra dizer isso depois que me conhecer melhor.
@dolcevitacontos