A OUTRA
Elisa encontrou um diário no sótão da casa que acabara de comprar. A capa era de couro avermelhado. Todas as páginas estavam em branco, exceto a última, onde se lia a pergunta:
“Está feliz com a sua vida?”
Ela não saberia explicar, mas sentiu vontade de responder em voz alta:
— Não.
Antes que pudesse refletir, ouviu seu nome vindo do andar de baixo. O pessoal da mudança chegara.
Seis meses se passaram num piscar de olhos. A casa já estava montada, mas Elisa ainda se sentia uma hóspede.
Numa tarde de domingo, voltou ao sótão. A primeira coisa que viu foi o diário. Ao abri-lo na última folha, seus olhos se arregalaram: havia outra frase.
“Sonhar, sonhar, você não se cansa de só sonhar?”
O pensamento foi inevitável: aquele diário tinha vida própria?
E como se o objeto lesse seus pensamentos, mais uma frase surgiu diante de seus olhos:
“Não adianta mais fingir que não está vendo.”
De repente, o absurdo. Um clarão tomou a parede do sótão. Ali, um filme mostrava Elisa naquela mesma casa. Mas a mulher projetada transbordava confiança, o oposto da Elisa insegura, criada ouvindo as palavras áridas:
“Você nunca faz nada certo.”
Na cena, a outra Elisa dançava com um homem no jardim. Seu riso parecia debochar da que estava ali, sozinha, vassoura em mãos, pronta para a faxina.
Então Elisa percebeu: eram dois filmes. O da outra Elisa, cheio de vida, projetado na parede. Enquanto o segundo passava em sua mente: o da sua própria vida vazia.
Num gesto lento, pegou o diário, como se já soubesse que haveria mais uma frase escrita na última página.
Elisa leu em voz alta:
— “Ela vive em você.”
Numa fresta de verdade, as quatro palavras iluminaram um canto esquecido da alma de Elisa. Talvez ela pudesse ser a outra. Ou talvez a outra fosse quem ela realmente era. E Elisa queria ser a outra.
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