— Você sabe onde está?
Clarice abriu os olhos. O teto era diferente, a luz, estranha. Um zumbido suave preenchia o ar.
O homem de roupa branca repetiu a pergunta: onde ela estava? A ironia era quase cômica. Como responder quando se passa a vida inteira perdida?
— Não sei… Em outra dimensão?
Ele sorriu.
— Bem-vinda à Terra do Se, onde habitam todos os caminhos não trilhados. Aqui, você pode descobrir como teria sido sua história se tivesse seguido o coração. As respostas estão à sua espera.
Ele gesticulou, revelando um corredor infindável com portas de cores vibrantes.
— Basta escolher uma dessas portas coloridas e abrir. Atrás de cada uma, está o que ficou no plano do desejo.
Clarice pensou no que havia deixado para trás. O sonho de ser atriz, silenciado pela pressão familiar, para dar lugar à professora de Literatura. O amor arrebatador por João Pedro, que sacudiu sua vida até que ela tremesse de medo da intensidade de seus sentimentos. Era tudo tão diferente. Tudo o que ela queria. Então, por que se contentava com uma existência opaca?
Por que isso? Por que aquilo? E todas aquelas portas coloridas diante dela, apontando os caminhos que recusou conhecer. Atrás de cada uma havia uma história digna de ser vivida.
Seus olhos serpenteavam entre a porta azul, verde, vermelha, violeta, branca e cinza. Até que, no final do longo corredor, ela notou uma porta de vidro, totalmente transparente.
— E aquela porta? — perguntou.
O homem de roupa branca sorriu.
— Aquela é a saída da Terra do Se. Quem não suporta ver como a vida poderia ter sido — porque é preciso coragem para encarar tudo o que se perdeu — segue por ela e volta para o lugar de onde veio.
Clarice caminhou em direção à porta transparente enquanto as coloridas sussurravam passagens que ela poderia ter vivido. Ainda que não conseguisse entender muito bem o que diziam, algumas palavras se repetiam com clareza: alegria, paixão, verdade, vontade.
Sua mão tocou a superfície fria da porta de vidro.
Empurrou.
Num piscar de olhos, estava de volta à sala de aula. Seus alunos riam de sua cara assustada.
Clarice pegou o giz e escreveu no quadro:
Abra a sua porta.
— Hoje a aula será diferente. Quero conhecer um pouco mais da história de vocês. Regina, quem é você?
@dolcevitacontos