Tudo por ali era tão iluminado quanto um dia de sol. Letícia abriu a porta de vidro e entrou no grande salão circular. A forma arredondada passava uma sensação de acolhimento. Ela pensou nos braços que se curvavam para enlaçar alguém.
Sobre a mesa de mármore branco, um grande livro aberto exibia símbolos desenhados em molduras intricadas. Um homem de barba grisalha, vestindo uma túnica cinza, escrevia ali. Sem levantar os olhos, disse com voz grave:
— Você está atrasada.
Letícia abriu a boca para se desculpar, mas ele arrematou:
— Sente-se.
Ela se acomodou em uma das duas cadeiras diante da mesa.
— Sabe por que está aqui?
— Sim. Para assinar o compromisso do encontro que terei em outra vida.
Nesse instante, o homem ergueu os olhos e a encarou:
— Será que desta vez você não vai fugir do que sente? Seu destino se cruza com o dele há muitas vidas. E, em todas elas, você hesitou.
Letícia teria tanto a dizer. E, ao mesmo tempo, quase nada. A verdade era simples, quase banal: ela sentia medo de amar.
— Eu não sei se terei coragem.
— Você tem coragem. Uma coragem idiota para afastar o amor, mas não deixa de ser coragem.
Letícia nunca havia pensado nisso. Era preciso coragem para fugir de quem se ama. Sim, uma coragem estúpida que a deixara tantas vezes presa no labirinto da saudade. O labirinto do “se”: do que poderia ter sido.
O homem virou a página do grande livro, e o som ecoou pelo salão, como o farfalhar das asas de um anjo. Letícia voltou dos pensamentos e se encontrou de novo ali, no salão circular.
— Eu queria dizer que vou mudar, mas não sei se minha coragem será diferente.
O homem de barba grisalha esboçou um sorriso diante da resposta honesta. Tantas pessoas passavam por ali antes de voltarem a viver. Quantas delas não tinham aprendido quase nada? E voltavam. Voltavam. Voltavam. Ele gostaria de poder fazer algo. Talvez sussurrar em sonhos, iluminar caminhos. Mas isso não estava em suas mãos. Dependia apenas delas.
Ele girou o livro em direção a Letícia. E ela hesitou por um instante. Então segurou a pena e assinou. Era hora de tentar mais uma vez: o encontro estava marcado.
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