A estrada de terra levantava poeira, e Guto chacoalhava dentro do carro. Irritado, xingou até a última geração do infeliz que inventou o churrasco da firma em um lugar que nunca chegava.
O GPS parecia mais perdido do que ele próprio quando viu uma placa surgir naquele fim de mundo. Guto não conseguia entender mais nada: seu carro estava diminuindo a velocidade e parou exatamente ao lado da tal placa. Ali estava escrito: “Porto do Céu”, com uma seta indicando virar à esquerda, e “Outras Direções”, à direita.
E o carro, que até aquele instante estava com o tanque quase cheio, por alguma razão inexplicável, não tinha mais uma gota de combustível.
Guto pensou: só faltava chover. E uma tempestade desabou como se alguém o tivesse ouvido. Incrédulo e, ao mesmo tempo, furioso, ele socava a buzina no volante, repetindo:
— Minha vida é isso! Um festival de coisas bizarras.
Não, não era exagero. Na infância, foi alvo das mais diversas brincadeiras idiotas na família e na escola. Na adolescência, seu rosto sumiu atrás das espinhas. Quando se casou pela primeira vez, sua esposa o traiu com o time de futebol inteirinho. A catástrofe do segundo casamento foi mais discreta: sua ex fugiu com o padeiro. Sim, o padeiro.
Interrompeu a retrospectiva que não valia a pena lembrar de novo ao ver o clarão. Uma estranha luz iluminou a placa na estrada de terra. E então, ele viu uma mulher belíssima, usando um esvoaçante vestido branco, emergir da luz. Num piscar de olhos, não havia mais uma gota de chuva. O céu estava azul, e o sol, radiante.
Perplexo, Guto acompanhou com o olhar a mulher que, ao lado de seu carro, fez um sinal para que ele abrisse o vidro da janela.
Guto não fez o menor movimento, mas o vidro foi descendo devagar enquanto ela dizia:
— Se você virar ali, estará em Porto do Céu. Sua vida nunca mais será a mesma. Não está cansado de perder?
Antes que Guto tivesse tempo de abrir a boca, a mulher desapareceu diante de seus olhos. Seria um anjo? Uma alucinação? Um aviso da sua intuição? E ele ficou ali por muito tempo, olhando para a placa que indicava duas direções.
Demorou até se dar conta de que o nível do combustível de seu carro estava quase cheio. Ele deu a partida enquanto dizia para si mesmo:
— Cansei desse inferno. Porto do Céu, lá vou eu.
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