DOLCE VITA
INSTAGRAM: @dolcevitacontos
Capa Meu Diário Textos Áudios Perfil Livro de Visitas Contato Links
Textos

 

 

A estrada de terra levantava poeira, e Guto chacoalhava dentro do carro. Irritado, xingou até a última geração do infeliz que inventou o churrasco da firma em um lugar que nunca chegava.

 

O GPS parecia mais perdido do que ele próprio quando viu uma placa surgir naquele fim de mundo. Guto não conseguia entender mais nada: seu carro estava diminuindo a velocidade e parou exatamente ao lado da tal placa. Ali estava escrito: “Porto do Céu”, com uma seta indicando virar à esquerda, e “Outras Direções”, à direita.

 

E o carro, que até aquele instante estava com o tanque quase cheio, por alguma razão inexplicável, não tinha mais uma gota de combustível.

 

Guto pensou: só faltava chover. E uma tempestade desabou como se alguém o tivesse ouvido. Incrédulo e, ao mesmo tempo, furioso, ele socava a buzina no volante, repetindo:

 

— Minha vida é isso! Um festival de coisas bizarras.

 

Não, não era exagero. Na infância, foi alvo das mais diversas brincadeiras idiotas na família e na escola. Na adolescência, seu rosto sumiu atrás das espinhas. Quando se casou pela primeira vez, sua esposa o traiu com o time de futebol inteirinho. A catástrofe do segundo casamento foi mais discreta: sua ex fugiu com o padeiro. Sim, o padeiro.

 

Interrompeu a retrospectiva que não valia a pena lembrar de novo ao ver o clarão. Uma estranha luz iluminou a placa na estrada de terra. E então, ele viu uma mulher belíssima, usando um esvoaçante vestido branco, emergir da luz. Num piscar de olhos, não havia mais uma gota de chuva. O céu estava azul, e o sol, radiante.

 

Perplexo, Guto acompanhou com o olhar a mulher que, ao lado de seu carro, fez um sinal para que ele abrisse o vidro da janela.

 

Guto não fez o menor movimento, mas o vidro foi descendo devagar enquanto ela dizia:

 

— Se você virar ali, estará em Porto do Céu. Sua vida nunca mais será a mesma. Não está cansado de perder?

 

Antes que Guto tivesse tempo de abrir a boca, a mulher desapareceu diante de seus olhos. Seria um anjo? Uma alucinação? Um aviso da sua intuição? E ele ficou ali por muito tempo, olhando para a placa que indicava duas direções.

 

Demorou até se dar conta de que o nível do combustível de seu carro estava quase cheio. Ele deu a partida enquanto dizia para si mesmo:

 

— Cansei desse inferno. Porto do Céu, lá vou eu. 

 

INSTAGRAM

@dolcevitacontos 

Dolce Vita
Enviado por Dolce Vita em 19/02/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários